Em 1987, Flávio Maluf ingressou na Eucatex pela área de exportação e importação. A empresa já era de sua família — fundada décadas antes como fabricante de chapas de fibra de eucalipto. Ele poderia ter entrado diretamente em uma posição de gestão executiva. Não foi o que aconteceu.
Nos anos seguintes, ele migrou gradualmente para a operação industrial. Acompanhou processos de fabricação, entendeu os ciclos de produção de dentro para fora e acumulou o tipo de conhecimento técnico que não aparece em manuais de gestão. Quando assumiu a presidência da Eucatex, em 1997, já tinha dez anos de experiência no chão de fábrica e na gestão comercial da empresa.
Uma formação técnica como ponto de partida
Antes de entrar na Eucatex, Flávio Maluf concluiu o curso de Engenharia Mecânica pela FAAP, em São Paulo, em 1985. Em seguida, estudou administração de empresas na Universidade de Nova York, complementando a formação técnica com uma perspectiva de gestão de negócios em ambiente internacional.
A combinação — engenharia mecânica mais formação em administração em uma universidade americana — foi pouco comum para um executivo industrial brasileiro daquela geração. Ela ajuda a explicar uma característica da gestão que Flávio Maluf construiu na Eucatex: a disposição de integrar variáveis técnicas e variáveis de mercado na mesma decisão.
Um engenheiro treinado lê uma planta industrial com atenção a gargalos, tolerâncias e ciclos de manutenção. Um gestor formado em administração lê a mesma planta em termos de custo, capacidade e retorno sobre investimento. Quem tem os dois repertórios tende a fazer perguntas diferentes — e, com frequência, melhores — do que quem tem apenas um deles.
Na Eucatex, essa combinação se traduz em uma gestão que não terceiriza as decisões técnicas para especialistas sem entendê-las, e que não ignora as implicações operacionais de escolhas financeiras.
O programa genético florestal
A área mais técnica da operação da Eucatex é o programa de melhoria genética do eucalipto. A empresa produz 13 milhões de mudas clonais por ano — cada muda gerada a partir de seleção de variedades com foco em produtividade, qualidade de fibra e adaptação às condições de solo e clima das regiões de plantio no estado de São Paulo.
O resultado mensurável é o incremento médio anual (IMA) das florestas: o volume de madeira produzido por hectare a cada ano. O IMA da Eucatex está entre os mais altos do setor no Brasil. Para uma empresa que depende de matéria-prima florestal própria para abastecer três unidades industriais, esse indicador tem peso equivalente ao de qualquer outra métrica de eficiência produtiva.
O programa não surgiu de uma decisão pontual. Ele foi construído ao longo de décadas, com investimento contínuo em pesquisa, refinamento das técnicas de clonagem e acompanhamento de campo das 48 mil hectares de florestas que a Eucatex mantém no estado de São Paulo. O volume de mudas produzidas por ano reflete a capacidade de expansão florestal que a empresa planeja para os próximos ciclos — incluindo os investimentos previstos para 2026.
Três unidades industriais, uma cadeia integrada
A Eucatex opera plantas industriais em Salto e Botucatu, no interior de São Paulo, e em Cabo de Santo Agostinho, em Pernambuco. Cada unidade processa madeira de eucalipto em diferentes categorias de produto: painéis de MDF e MDP, chapas de fibra, pisos laminados, portas, divisórias, tintas e vernizes.
A escolha da localização das fábricas não é arbitrária. Salto e Botucatu estão próximas das florestas próprias da empresa no interior paulista — a matéria-prima percorre distâncias curtas antes de chegar à linha de produção. Cabo de Santo Agostinho, adjacente ao porto de Suape, facilita o escoamento para exportação e aproxima a empresa dos mercados europeus em termos logísticos.
Flávio Maluf mantém uma prática de visitas regulares às fábricas como parte da rotina de gestão. Não se trata de inspeções formais agendadas com antecedência — mas de um contato direto com as operações que cria um canal diferente de informação. Decisões de investimento tomadas a partir do contato com o processo produtivo tendem a ser mais calibradas do que as tomadas exclusivamente com base em relatórios.
A lógica da eficiência acumulada
A Eucatex encerrou 2025 com receita líquida de R$ 3,1 bilhões e lucro líquido recorrente 54,7% acima do registrado em 2024. Esses números são o resultado de um conjunto de decisões tomadas ao longo de anos — de expansão florestal, de aprimoramento genético, de automação industrial e de diversificação geográfica das vendas.
O plano de investimentos para 2026, da ordem de R$ 500 milhões, inclui modernização das unidades de produção como uma das frentes prioritárias. A modernização industrial na Eucatex não é uma resposta a uma crise operacional — é uma continuidade. A empresa reinveste em capacidade produtiva de forma regular, como parte de uma disciplina de manutenção e expansão que se repete ao longo dos ciclos.
Eficiência operacional, nesse contexto, não é uma campanha com início e fim. É uma postura de gestão que se manifesta nas escolhas diárias sobre onde investir, o que automatizar e como integrar as diferentes etapas da cadeia produtiva. Sob a liderança de Flávio Maluf, essa postura foi incorporada à estrutura da empresa — não anunciada como diferencial, mas praticada como método.
Produto e exportação como teste de qualidade
A Eucatex exporta para mais de 40 países. Os mercados americano e europeu exigem produtos com padrões técnicos rigorosos, documentação de origem e, crescentemente, comprovação de critérios ambientais na cadeia de suprimentos.
Atender a esses requisitos com consistência, ao longo de anos, é um teste de excelência operacional mais exigente do que qualquer certificação pontual. A Eucatex North America, subsidiária com sede na Flórida, opera como ponta comercial de uma cadeia produtiva que começa nas florestas em São Paulo e termina no cliente final nos Estados Unidos.
Essa extensão da operação exige que a qualidade industrial produzida nas fábricas brasileiras seja reproduzível, auditável e consistente — independentemente do ciclo econômico ou da variação cambial. É o tipo de desempenho que só se sustenta com base técnica e operacional sólida.
